Quarta-feira, Setembro 14, 2005

No Íntimo

Continuo sentado na Casa de Pedra, revisitando meus atos e minhas vivências ao redor do mundo. Passeando pelo meu íntimo, reencontrei a caixa dos meus segredos. Olhei em volta e, quando me senti seguro, abri-a novamente.

Segredos são como guarda-chuvas molhados. Não se pode guardá-los após a chuva. Ou eles mofam, fedem, criam fungos e germes. Nos contaminam. É preciso abri-los para que sequem, e isso requer espaço, dependente do tamanho do guarda-chuva. Depois de secos, é possível guardá-los bem, sem nenhum prejuízo. Até que chegue a hora de abri-los de novo. E, com certeza, teremos que fazê-lo de novo, futuramente.

Sintam-se agraciadas as pessoas que, de acordo com o dono do guarda-chuva, puderam estar presentes no momento em que foram abertos os segredos.

Às minhas pessoas queridas que ainda vagam, sou grato por terem me cedido o "espaço" para os meus segredos. Fora o segredo da vida, meus outros segredos já não são, agora, só meus.

Acendi uma escuridão na vela de cada um.

Sigo meditando na Casa de Pedra.

Quarta-feira, Agosto 10, 2005

Sonhos da Casa de Pedra - "Limite"

Então é isso...
Cheguei no limite do mundo. Olhei pra frente e nada, olhei embaixo da borda do chão, à minha frente, e também não havia nada. Era pra isso que eu caminhava tanto? Pra nada? Ridículo.
Sentei na borda da realidade, com as pernas balançando, enquanto crescia em meu íntimo a vontade de me jogar além dos limites da realidade. Me pareceu a escolha mais óbvia e a mais fácil. Afinal, eu já tinha visto tudo. Digo, passei os olhos em tudo o que eu encontrei no caminho, mas nada me pareceu chamar ou merecer minha atenção. Escorreguei na borda e caí no nada.

Acordei no mesmo lugar, só que não havia o limite do mundo. Me pus de pé, e uma estranha sensação me ocorreu - a de estar enxergando, ouvindo e sentindo mutio mais do que antes. Tudo ao mesmo tempo. Os cheiros, os tatos. Uma árvore me chamou e eu me virei para olhar. Me senti observado pelas pessoas. Senti seus pensamentos. Conseguia enxergar as coisas que eram invisíveis pra mim e acabei me tornando visível. Vi as cores das pessoas nos seus humores. Percebi as montanhas. Sem belezas, sem contemplação. Eu senti. Sentei-me como homem e levantei-me deus.

Senti o sabor do mundo, enfim.

Terça-feira, Julho 12, 2005

All The Children Sing

Por mais que diga que eu voe, não vôo, eu vou te procurar
Por mais que diga que eu voe, não vôo, eu vou, te encontro lá
Pra voltar

Deixe
que eu te toque hoje
que eu te leve pra onde
deveria estar

Deite
como sempre desde
que caiste neste
de que vais voltar

Sinta
raios penetrando
em seu novo corpo
te fazer voltar

Siga
é, agora, vida
abra os olhos, diga
que eu te vi voltar

(Bryan Ferry/Fernando Matos)

A Força Oculta

Permaneço na casa de pedra, sentado em seu banquinho rústico. Começo a pensar nos meus atos. Recomeço a pensar nos meus atos. Paro de pensar, porque acho que estou um tanto cansado, mas logo volto a repensar meus atos, pois vejo que seria muito mais cansativo tentar esquecer tudo. E, mais do que cansativo, talvez fosse impossível.
Ao organizar minhas idéias, tento apontar falhar e hipotetizar alguns modos de agir que poderiam ter sido utilizados. Métodos, fórmulas, estratagemas, organogramas. Mas não acho nenhum que me sirva. Parto, então, em busca do que é certo e do que é errado, e - óbvio - me perco. Tento buscar o justo e me parece infrutífero novamente.
No fim de tudo, a coisa que me salta nos pensamentos é que não existem fórmulas. Não existe o "correto universal". Não existe o "justo universal". Apenas o forte e o fraco.
E sigo por essa linha... mas o que parece forte não o é. Apenas tenta parecer forte porque tem medo que o achem fraco. Simula a força, ostenta, esconde a fraqueza. O verdadeiro forte não demonstra. Ele não tem porque demonstrar, seria um gasto de tempo. E, também, um sinal de fraqueza. Ele apenas guarda e controla sua força para ser usada na hora, lugar e intensidade apropriadas. Como a pedra.
A pedra não demonstra força. Não ostenta. Mas a possui, internamente. Resiste ao tempo, às intempéries, às agressões. A força está dentro da pedra. A pedra não procura o confronto, mas não foge da colisão.
E quando a água finalmente, de tanto chocar-se com a pedra, acaba esfacelando-a, esta aceita dignamente a "vitória" do oponente, sem ter passado pelo medo do confronto ou pela futilidade da ostentação.
Após a conclusão, decidi permanecer na Casa de Pedra.

Segunda-feira, Junho 27, 2005

Sonhos da Casa de Pedra - "Scarface"

Não lembro como, mas lembro que eu era um médico de um hospital. Só me recordo de ter meu hospital invadido por alguns gângsters. Entre eles estava Tony Montana, o papel de Al Pacino no filme "Scarface" (1983). Lembro de estar perseguindo-o por um dos corredores de uma das enfermarias do hospital. Al, ao chegar no fim do corredor, pulou pela janela, ficando empoleirado em uma pequena marquise externa, no maior estilo Gene Wilder em "A Dama de Vermelho". Mas seu braço continuava atirando contra as pessoas dentro do hospital. Não sei como uma pistola foi parar na minha mão. Cheguei perto da janela, apontei às cegas para o Al Pacino (somente coloquei o braço pra fora da janela) e disparei... mas o gatilho emperrou. Tentei várias vezes, sem resposta da pistola.
Desci correndo os andares do hospital, pela escada, mesmo. Encontrei com um dos capangas e atirei na cara, a queima-roupa, diversas vezes. Dessa vez, a arma não falhou. Surpreendentemente, encontrei outro capanga alguns andares depois, um clone perfeito do outro. Esse me ajudou: me deu uma outra pistola. Agradeci e segui descendo.
Quando cheguei à porta principal do hospital, a polícia já havia entrado em ação, segurando o Al Pacino e algemando-o. Feito isso, começaram a levá-lo para a viatura. Fiquei desesperado.
- Não estão vendo? Não percebem? Esse homem tem que morrer! Não adianta prender, só! Vocês têm que matá-lo!!
Dito isso, tentei atirar várias vezes na face do gângster... As duas armas me haviam falhado (ah, os sonhos... sempre há imperfeições nos mesmos, ainda que só nos demos conta depois). O levaram para a delegacia, sob meus protestos.
Me restou ir comprar alguma coisa no armazém próximo ao hospital. Resolvi comprar uma daquelas pastilhas sugar-free, sabor de nada/anis. Essa era mesclada com pedaços de bolacha recheada. Me pareceu atraente e pedi duas. Custavam só R$ 0,95 cada. O balconista olhou para o meu jaleco e, apontando para um bordado, perguntou:
- O que é isso?
- Ah, isso? É o logotipo da minha banda. Mandei colocar no meu avental.
- Hum... legal. O que tá escrito ali embaixo?
- Amêndoa.
- Que massa! Gostei mesmo. - E saiu comentando com os outros presentes, com um sinal de aprovação.
Olhando para o logo, percebi que meu parceiro de banda havia escrito o nome errado: "Amendôa". Logo me lembrei de uma de suas frases: "É um nome fácil, que todo mundo sabe escrever". Poxa, nem ele soube, pelo visto.
Segui meu caminho de volta comendo algumas pastilhas e pensando: "Devia ter comprado outra coisa. Essa mistura é muito esquisita..."

Domingo, Junho 26, 2005

A Casa De Pedra

A vida traz coisas aos seus sentidos. Às vezes, você nem as sente. E não é preciso sair do lugar pra que isso aconteça. Depois de algum tempo nesse estado, eu saí do meu lugar. Saí disposto a encontrar todo o tipo de novidades existentes no mundo. Encontrei pessoas, coisas, lugares diferentes; me apresentaram teorias e religiões, que logo neguei serem aplicáveis a mim. Eu queria ter minhas próprias teorias e religiões. Achei que havia conhecido pessoas; muitas dessas eu conheci depois, não sem me admirar ou me espantar e me afastar, logo depois. Algumas delas eu conheci de verdade, poucas delas. Me decepcionei com muita coisa e me emocionei com outras, mas nenhuma foi forte ou boa o suficiente pra me fazer ficar. Comecei a andar sem rumo, sem parar nunca.

Não sei quanto tempo eu caminhei, mas acabei encontrando uma estrutura longe de tudo. Achei que fosse só visão, mas não era. Era uma casa, toda feita de pedra. Dentro, só havia um aposento. Ninguém a habitava. Havia, também, uma poltrona, também de pedra, como todo o resto. Ali eu me postei e permaneci, petrificado. Havia achado o meu lugar, por enquanto. Não sentia o tempo passar e algumas coisas vinham aos meus sentidos, coisas com e sem nexo; coisas novas, recentes e antigas. Estava fadado a ficar petrificado ali. Não precisava sair. Sair pra quê?

Essas são as memórias da Casa de Pedra. Onde fiquei e ainda permaneço, penso eu.